Qual o hiato do produto no Brasil?


Olá, Reader, como foi o final de semana?

A edição 166 do Boletim AM está no ar!

Hoje quero falar sobre método.

Um dos princípios que originou a Análise Macro foi o de unir, sempre e o mais rápido possível, teoria com aplicações.

Essa necessidade de aplicar o mais rápido possível nasceu da minha insatisfação com a graduação em economia.

Quando entrei na faculdade, eu tinha passado por uma escola técnica - fiz técnico em telecomunicações - e já trabalhava há alguns bons anos na profissão.

Para resumir a estória - um momento maravilhoso da minha vida, diga-se - eu tinha cabeça de técnico.

O que isso quer dizer?

Uma pessoa técnica quer basicamente resolver problemas.

Ela tem uma base, composta pelos fundamentos da profissão, e aplica isso na resolução de problemas da profissão.

Então, eu com meus vinte poucos anos, ficava sem entender por que diabos os professores da faculdade de economia pouco falavam sobre os problemas da profissão e do país (que naquela época eram muitos, diga-se).

Era muito Marx, muito Keynes, muito Kalecki e pouca mão na massa para entender o pulso da economia.

Bom, isso me irritou tanto que acabei começando um blog para falar dessas coisas que não via na faculdade e achava que os economistas precisavam entender.

Quer um exemplo?

O título do boletim de hoje ilustra:

Qual o hiato do produto no Brasil?

Antes de mais nada, vamos simplificar as coisas.

O que diabos é hiato do produto?

Toda profissão tem seus jargões e um vocabulário pomposo para chamar de seu.

Com os economistas não é diferente.

Mas para explicar o conceito, vamos recorrer à um conceito simples advindo lá de séries temporais - nada mais do que uma sequência de observações tomada ao longo de um período de tempo.

Quando estamos interessados em entender o comportamento de uma série temporal no longo prazo, temos o hábito de decompor a mesma em pedaços.

Como se fosse uma autopsia estatística, nós a dividimos em componentes.

Então, uma série temporal qualquer pode ser dividida em pequenos pedaços que indicam o que é tendência de longo prazo, o que é fruto da sazonalidade e o que é um ruído de momento.

Esse conceito simples advindo lá das séries temporais pode, então, ser aplicado a diversos problemas em economia.

Por exemplo, vamos supor que estamos interessados em entender o que afeta o crescimento de longo prazo do Brasil e o que é fruto de momento, como flutuações de curto prazo advindo da política, por exemplo.

Um problema bem interessante, não?

Então, para começar, qual variável representa o crescimento da economia?

Temos um candidato para isso que o é o PIB, o produto interno bruto.

Uma variável de fluxo que busca medir a soma de todos os bens e serviços finais produzidos por uma economia ao longo de um período de tempo.

Se é uma série temporal, lembra que ela pode ser dividida em componentes.

Para simplificar, então, vamos supor que o PIB possa ser dividido em dois componentes: tendência e ruído.

O primeiro componente captura tudo o que afeta o PIB no longo prazo, como o estoque de capital, a força de trabalho, boas (ou más) instituições e por aí vai.

Já o ruído, esse maldito, captura tudo que distancia o PIB de encontrar sua amada tendência.

Mas lembra que os economistas gostam de nomes pomposos.

Então, eles chamam a tendência de produto (PIB) potencial.

Já o PIB é o produto efetivo.

E o safado do ruído ganha o nome de hiato do produto.

Assim, o PIB efetivo é igual ao produto potencial (a tendência) mais o hiato do produto (o ruído).

Reordenando os termos, o hiato do produto passa a ser a diferença entre o PIB efetivo e o PIB potencial.

Legal, né?

Sim, é um baita conhecimento importante, porque, por exemplo, se a gente toma essa diferença em termos de taxa de crescimento, dá para se perguntar quão longe o país está do seu crescimento potencial.

O que, percebe, nos dá um problemão para resolver...

Porque o tal do produto potencial é uma tendência, então, ele precisa ser estimado.

Ele não vem assim de mão beijada.

Deus não seria tão bom assim com os tais economistas.

E para estimar esse bicho, existem vários métodos e diversas formas de fazer.

Dá para construir tendência linear, tendência quadrática, passar filtro estatístico, construir função de produção...

E cada um desses métodos, por óbvio, vai dar um número diferente para o produto potencial.

E aí, meu filho, nasce a tal incerteza inerente à profissão de economista.

E isso é importante, você me pergunta.

É tão importante, Reader, que essa é uma das principais perguntas que os economistas brasileiros estão se fazendo nesse exato momento.

E existe tanta dúvida sobre isso que nem o Banco Central - veja você - tem certeza desse número.

Afinal, se o PIB efetivo está perto do PIB potencial, isso significa que a economia está em pleno emprego de fatores, inclusive, de mão de obra.

Quanto menor a diferença entre um e outro, menor o safadinho do hiato do produto.

Bom, acho que você entendeu, náo é?

Essa é a forma que a minha cabeça de técnico achava que a economia deveria ser abordada nas faculdades.

Felizmente, hoje, depois de quase duas mil postagens naquele Blog que viria a ser a Análise Macro, penso que muito coisa mudou nas faculdades de economia.

A Análise Macro fez 10 anos e gosto de pensar que contribuímos um pouco para essa mudança.

O nosso método, fruto da minha insatisfação, de aplicar o mais rápido possível, se transformou em diversos cursos, formações e mentorias que ajudaram milhares de alunos a romper a visão meramente teórica da disciplina.

E é o que continuaremos fazendo por aqui, porque como você pode ver, não há nada mais atual do que usar teoria econômica, estatística e dados para analisar o mundo, náo é mesmo?

A propósito, se quiser conferir o script em python que busca verificar as diversas medidas do safado do hiato do produto, veja aqui.


Um abraço,
Vítor Wilher — Análise Macro
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