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Edição #197 | Newsletter Semanal da Análise Macro Bazucas, estilingues e o emprego que a IA já mudouFala, Reader, tudo bem por aí? Recebi essa semana uma mensagem de um aluno antigo. Entusiasta da casa, indicou a Análise Macro para dezenas de pessoas ao longo dos anos. Mas se afastou. Na visão dele, nos últimos anos temos focado muito em conteúdo de IA e para ele: "são coisas complexas demais para o dia a dia profissional… vocês começaram a vender bazucas, quando na verdade a gente precisa de estilingues mais ágeis". Guardo a crítica com carinho — como sentimento, ela é legítima. Muita gente sente isso. A resposta, porém, não é minha opinião. É o que os dados mostram. Porque a IA parou de ser "o futuro" há um tempo. Ela é o presente. E o presente já mudou a régua do seu trabalho — provavelmente antes de você notar. Bora aos números? 📊 Os números — quem adota, cresceComecemos pelo estudo mais robusto sobre adoção corporativa do ano. O Ramp Economics Lab publicou em junho um trabalho cruzando dados reais de gasto com IA (via cartão corporativo e bill pay da Ramp) com dados de força de trabalho da Revelio, em 21.599 firmas americanas. Ramp — "A New Look at AI's Impact on Jobs" (jun/2026) Amostra: 21.599 firmas dos EUA, gasto real com IA Adotantes intensos, 2 anos após adoção: +10,2% de headcount Cargos de entrada: +12% Adoção superficial: efeito estatisticamente nulo Lag do efeito: aparece 6 a 12 meses depois Ressalva dos próprios autores: correlação, não causação. Adotantes já eram maiores e cresciam mais rápido. Repare no achado: adoção intensa — quem usa pra valer — cresce mais em pessoas, inclusive em cargos de entrada. Adoção superficial — quem contrata a licença e não integra — não faz diferença nenhuma. Não é o "apocalipse do emprego". Mas também não é grátis. Quem adota de leve fica no meio do caminho. 🔥 A fronteira que quadruplicou em 8 mesesAgora o outro lado — o que o agente já consegue fazer sozinho. O Remote Labor Index, da Scale AI com o Center for AI Safety, mede algo cirúrgico: pega 240 projetos freelance reais (mediana de US$ 200, 11,5h de trabalho humano) e mede quantos um agente de IA entrega com qualidade profissional. Remote Labor Index — evolução da fronteira Out/2025 (lançamento): Manus liderava com 2,5% dos projetos Jul/2026 (agora): Fable 5 (Anthropic) em 16,1% Runners-up: Opus 4.8 (8,3%), GPT-5.5 (6,3%) Ganhos do Manus, no lançamento: US$ 1.720 vs US$ 143.991 dos humanos A fronteira mais que quadruplicou em menos de 8 meses. Dezesseis vírgula um por cento parece pouco. Mas o que importa aqui é a derivada: 2,5% → 16,1% em pouco menos de oito meses. Se você tirar essa reta pra frente, a conversa muda de cara. E o mercado já precificou isso: a ação do Upwork cai 56% no ano (e quase 90% desde o pico de 2021); a do Fiverr, mais de 50% em 2026 — com a própria empresa projetando queda de 12% na receita. Marketplaces de tarefas padronizadas estão sendo comidos vivos. ⚙️ Mas onde está o apocalipse do emprego?Aqui entra o achado mais interessante — e mais nuançado — da semana. Dois papers acadêmicos sérios olharam a mesma pergunta e chegaram em respostas complementares. O CESifo WP 12752 (Facius & Iacono) estudou o mercado de trabalho da Noruega de 2015 a março de 2025, usando o lançamento do ChatGPT como choque. Conclusão: nenhuma evidência robusta de deslocamento de emprego entre jovens em ocupações altamente expostas à IA. Os coeficientes são negativos, sim, mas pequenos e insignificantes. Parte da queda pós-2022 é tendência secular pré-existente — não a IA. Já o IZA DP 18723 (Westby, Modestino & Cheng, junho/2026) olhou vagas de tech nos EUA no Lightcast. Aqui o dado é mais duro:
Junta as duas pontas e a leitura fica clara. Não tem colapso agregado do emprego (Noruega, Ramp). Mas a régua já mudou (IZA, RLI). A porta de entrada apertou, e o que ela passou a exigir não é técnica de IA — é aquilo que a IA não substitui bem. 🧩 A IA "difícil" de 2024 virou banal em 2026Aqui está o ponto que o meu aluno não viu. Ele leu o conteúdo de IA como se ainda fosse 2024 — quando de fato exigia entender arquitetura, tuning, MLOps. Hoje, o custo caiu em ordens de grandeza. O Google acabou de lançar o Nano Banana 2 Lite a US$ 0,034 por mil imagens e o Omni Flash a US$ 0,10 por segundo de vídeo. Gerar imagem virou custo de arredondamento. Isso significa que o preço técnico da entrada caiu. E o valor migrou para outra camada: a de quem faz a pergunta certa, valida a resposta e integra no fluxo de trabalho. Isso é o estilingue. Não é aprender a treinar LLM. É aprender a usar bem. E é exatamente isso que a gente vem tentando ensinar — do sentimento COPOM com três LLMs em paralelo (edição #196), à análise de custo real de inferência (#195), à conexão com juros e capex (#194). Nenhuma dessas edições exigiu você virar engenheiro de ML. Todas exigiram você pensar com a IA do lado. 🧠 Insight finalA régua do mercado de trabalho profissional mudou em silêncio, e o que ela agora premia é o oposto do que muita gente supõe. Não é saber programar. Não é dominar frameworks. É saber perguntar, saber julgar e saber comunicar — porque tudo o mais o agente já faz, e faz cada vez melhor. O aluno que me escreveu tem razão numa coisa: poucos de vocês vão precisar de uma bazuca. Mas o estilingue de que ele fala é exatamente aprender a usar IA no dia a dia — não fugir dela. Algo que fizemos recentemente na nossa Imersão sobre Claude Code: mostrar aos alunos como pensar e executar um projeto de ponta a ponta com linguagem natural, explicando à IA exatamente o que você quer. Quem entender isso ganha o próximo ciclo. Quem esperar mais um ano para começar vai descobrir que a fronteira já andou de novo — provavelmente quadruplicou, se o RLI serve de guia. A IA não é o futuro, Reader. É o presente. E o presente já está te avaliando. Tome uma decisão o quanto antes. 📎 Material da semana 📄 Resumo da semana (PDF) — o digest completo das newsletters que embasou esta edição. 🔍 Aprofundamento (PDF) — dossiê vertical sobre o tema da semana. 🎧 Ouça em podcast — esta edição em áudio. Um abraço, A verdade está nos dados. |
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Edição #196 | Newsletter Semanal da Análise Macro Sentimento COPOM: medindo o tom da ata com três LLMs em paralelo Fala, Reader, beleza por aí? Último domingo do mês — dia de edição especial. Hoje quero te mostrar um projeto que construímos ao vivo, do zero, com o Claude Code na nossa última Imersão. Chama-se Sentimento COPOM. A pergunta é simples: e se a gente pudesse medir o tom da ata do Copom? Não no olhômetro do economista de plantão. Em número. Calibrado. Reprodutível. E há uma...
EDIÇÃO #195 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO Quanto custa sua Inteligência Artificial? Fala, Reader, beleza por aí? Domingo, fim de tarde, e eu começo com uma pergunta meio chata. Pega o ChatGPT Pro no topo, US$ 200 por mês. Quanto custa, de verdade, entregar isso pra você? A resposta apareceu essa semana num estudo da SemiAnalysis. Em uso agêntico maximizado, o plano de US$ 200 pode custar até US$ 14.000 por usuário à OpenAI em compute. O Claude Max equivalente, da Anthropic, custa...
EDIÇÃO #194 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO Mais inteligência artificial, mais juros? Fala, Reader, tudo bem por aí? Finalzinho de domingo, o time do Ancelotti te decepcionou (de novo), então nos resta voltar à realidade... Hoje eu queria compartilhar com você um pensamento que o meu agente de IA (de notícias) está me trazendo há algumas semanas e eu ainda não dei muita bola... A promessa inicial da IA era simples: seria um choque positivo de produtividade, derrubaria custos, e portanto...