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Edição #196 | Newsletter Semanal da Análise Macro Sentimento COPOM: medindo o tom da ata com três LLMs em paraleloFala, Reader, beleza por aí? Último domingo do mês — dia de edição especial. Hoje quero te mostrar um projeto que construímos ao vivo, do zero, com o Claude Code na nossa última Imersão. Chama-se Sentimento COPOM. A pergunta é simples: e se a gente pudesse medir o tom da ata do Copom? Não no olhômetro do economista de plantão. Em número. Calibrado. Reprodutível. E há uma efeméride que torna o exercício ainda mais oportuno: o Copom completou 30 anos neste mês — foi criado em 20 de junho de 1996. Comunicação de banco central, aliás, não é tema novo por aqui: foi exatamente sobre isso que defendi minha dissertação de mestrado, em 2015, com o ex-presidente do BC Gustavo Franco na banca. Onze anos depois, o que mudou foi a ferramenta — hoje eu coloco três IAs para fazer essa leitura. Joguei o problema para três LLMs em paralelo — Gemini, Claude e GPT — mesmo prompt, mesmos textos, mesma calibração. E o resultado tem uma lição metodológica que vale para qualquer um usando IA em macro hoje. Bora destrinchar. 🎯 A pergunta — e a teseA comunicação do BC é, ela mesma, instrumento de política monetária. Galípolo escolhe palavra a palavra. O mercado lê linha por linha. E a leitura é, na prática, subjetiva. O exercício é converter essa leitura em índice quantitativo — uma nota de tom da ata. Para isso, peguei as atas desde a reunião 232 (ago/2020), recorte com regime de metas único e estrutura textual estável, seções A (conjuntura) e B (riscos). Três provedores rodando em paralelo via LangChain, saída estruturada com Pydantic, scores calibrados por OLS contra a variação observada da Selic. Cache local, custo marginal ~0, reprocessar a amostra inteira sai por menos de US$ 1. E a tese que emerge dos números: Os três modelos concordam sobre a direção do tom (qual ata é mais hawkish, qual é mais dovish). Mas divergem sobre a intensidade com que essa direção vira variação da Selic. A escolha do provedor não é detalhe técnico — é decisão metodológica. 📊 Os números — três modelos, três réguasValidação em três camadas: inferência in-sample (statsmodels.OLS, com SE, t, p, IC 95%), holdout nas últimas 6 reuniões e walk-forward com janela expansiva (treino mínimo de 20 atas). Os t-estatísticos vieram ≥ 3,6 para todos os modelos calibrados. Está tudo significante. A diferença está em quanto. 🥇 GPT-4.1-mini — líder out-of-sample R² in-sample: ≈ 0,66 RMSE walk-forward: 0,357 p.p. Ganho vs. baseline léxico: ~32% Claude Haiku 4.5 — o sensível R² in-sample: ≈ 0,43 β̂ (sensibilidade): +0,62 p.p. por unidade de score Leitura: maior amplitude — mas não vira poder preditivo Gemini Flash Lite — o conservador R² in-sample: ≈ 0,35 β̂ (sensibilidade): +0,36 p.p. por unidade de score Leitura: empata com Claude fora da amostra Olha o que está acontecendo aqui. As correlações entre os scores brutos dos três modelos ficam entre 0,67 e 0,78 — eles concordam sobre qual ata é mais dura. Mas o β̂ calibrado vai de +0,36 a +0,62 p.p. por unidade de score. Mais de 70% de diferença na intensidade. Em bom português: se você usar Claude, uma ata "+1 desvio de tom" vira +0,62 p.p. de Selic implícita. Se usar Gemini, vira +0,36. O mesmo texto. A mesma reunião. Réguas diferentes. ⚙️ Por que importa: a régua não é neutraPara classificar virada de ciclo — saber se o Copom ficou mais hawkish ou mais dovish — qualquer um dos três serve. A correlação alta entre os scores garante isso. Agora, para usar o índice como variável quantitativa — alimentar uma regra de Taylor, calibrar uma reação do mercado, comparar com forward guidance —, o provedor escolhido muda materialmente o resultado. Mesmo prompt, mesmos textos, leituras diferentes em p.p. E tem um achado secundário que vale ouro: o modelo mais "sensível" no ajuste (Claude, β̂ alto, R² médio) não é o que melhor prevê fora da amostra. Quem ganha walk-forward é o GPT, com sensibilidade mais comedida e R² mais alto. Sensibilidade não compra poder preditivo. Validar fora-da-amostra é obrigatório. Lição prática: a escolha do LLM em uma pipeline macro é uma decisão metodológica — comparável a escolher um deflator, um filtro HP ou uma janela de média móvel. Reporte o provedor. Reporte a versão. Valide fora da amostra. Sempre. 🛠️ Como foi feito — ao vivo, com Claude CodeO projeto inteiro foi construído na Imersão Claude Code da Análise Macro, do zero, em tela aberta. Stack:
Se você quer ver os slides públicos do projeto, estão aqui: vitorwilher.github.io/anthropic-academy-cursos/projetos/sentimento-copom. 🧠 Insight finalA IA não substitui o economista lendo a ata do Copom. Ela instrumenta essa leitura — transforma o subjetivo em série temporal auditável, comparável reunião a reunião, calibrada em unidade que o macroeconomista entende (p.p. da Selic). Mas o exercício revela uma coisa que, sinceramente, eu não esperava com essa nitidez: três modelos de fronteira, mesmo prompt, mesmos textos — concordam na direção, divergem na intensidade. A "régua de IA" tem precisão de provedor. Não é bug. É a natureza do instrumento. E quem usar LLM como sensor macro sem reportar o provedor, a versão e a validação out-of-sample está, na prática, escondendo um grau de liberdade do leitor. É o tipo de descoberta que só aparece quando você roda os três em paralelo. E é exatamente por isso que vale a pena construir essas coisas no detalhe. 📎 Material da semana 📄 Working paper completo — abstract, metodologia, tabelas de regressão e PDF para download, no portfólio. 📊 Slides do projeto — a apresentação do Sentimento COPOM, construído ao vivo na Imersão Claude Code. 📄 Resumo da semana (PDF) — o digest das newsletters de IA da semana. 🎧 Ouça em podcast — o resumo da semana em áudio. Um abraço, Vítor Wilher A verdade está nos dados. |
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EDIÇÃO #203 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO Agentes de IA na Econometria Fala, Reader, tudo bem por aí? Saiu na semana passada um paper do NBER que fez uma coisa que muita gente do nosso meio faz todo dia sem medir: pedir para o modelo escrever código econométrico. Só que Galiani, López e Sosa mediram com rigor de experimento. 1.890 runs, 21 tarefas, 3 softwares, 3 níveis de agência. Fui ler o PDF inteiro. Não o abstract. E o resultado é interessante por dois motivos: por onde a IA...
EDIÇÃO #202 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO O modelo virou commodity. A engenharia é o diferencial. Fala, Reader, tudo bem por aí? Domingo à noite, e eu quero começar essa edição com o paradoxo da semana. O Qwen3.8-Max, da Alibaba, estreou no top 4 do ranking de código da Arena — acima do Claude Fable 5 — cobrando US$ 2 a 6 por milhão de tokens contra US$ 15 a 75 dos rivais americanos. A OpenAI, no mesmo período, cortou o preço do GPT-5.6 Luna em 80%. Então a pergunta se impõe: se o...
EDIÇÃO #201 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO 58,1% dos empregos em risco? Fui atrás do número. Fala, Reader, tudo bem por aí? Essa semana esbarrei num site novo — o Profissões.org.br, um "atlas do trabalho brasileiro" — e logo na capa, o número que virou manchete no Brasil inteiro: 58,1% dos empregos no país correm alto risco de automação. Fui atrás. Porque quando um número se repete tanto, ele deixa de ser dado e vira slogan. Spoiler: o número existe, é sério, tem autor e DOI. Mas ele...