|
EDIÇÃO #201 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO 58,1% dos empregos em risco? Fui atrás do número.Fala, Reader, tudo bem por aí? Essa semana esbarrei num site novo — o Profissões.org.br, um "atlas do trabalho brasileiro" — e logo na capa, o número que virou manchete no Brasil inteiro: 58,1% dos empregos no país correm alto risco de automação. Fui atrás. Porque quando um número se repete tanto, ele deixa de ser dado e vira slogan. Spoiler: o número existe, é sério, tem autor e DOI. Mas ele mede dados de 2017 com um método concebido em 2013. E enquanto ele domina o debate público, saiu em abril um outro estudo — FGV IBRE, metodologia da OIT — que chega num retrato bem diferente. Não porque contradiz. Porque mede outra coisa. Bora entender a diferença? 🎯 O número tem sobrenomePrimeiro, dar crédito. Os 58,1% vêm de Ottoni, Oliveira, Estrela, Santos & Barreira (2022), "Automation and job loss: the Brazilian case", publicado na Nova Economia. Está no SciELO, tem DOI, foi peer-reviewed. O que o paper faz, em uma frase: pega as probabilidades de automação estimadas por Frey & Osborne (2017) — cuja versão preliminar circulou em 2013 — para ocupações americanas, faz a ponte para as ocupações brasileiras (SOC 2010 → ISCO 2008 → COD 2010 → PNADC 2017), e conta quantos ocupados estão em ocupações com probabilidade de automação acima de 70%. Vaz/Ottoni et al. (2022) — em números 🔹 58,1% dos ocupados em alto risco (52,4 mi de 90,1 mi). 🔹 Decomposto: 55,1% no formal, 62% no informal. 🔹 Base: PNADC 2017 — pré-ChatGPT. 🔹 Limiar: probabilidade > 70%. 🔹 Horizonte declarado: 10 a 20 anos. Uma referência de escala ajuda: para os Estados Unidos, Frey e Osborne chegam a 47,0% dos empregos automatizáveis no mesmo horizonte. O Brasil aparece em 58,1% — mais alto, puxado sobretudo pela informalidade, que responde por mais de 41% dos empregos no país. Agora a parte que ninguém cita quando repete o 58,1%. Os próprios autores escrevem, com todas as letras, que o número representa um "worst-case scenario". E que "innovations themselves also help create new jobs", de modo que a perda líquida de empregos "will likely be smaller than we estimate". O paper não modela criação de vagas. Ele mede exposição no pior cenário possível. O número é honesto. Quem usa como manchete é que faz a torção. 📊 O outro retrato — o que a IA generativa realmente alcançaEm 27 de abril de 2026, Daniel Duque publicou no Blog do IBRE um post sobre estudo de Peruchetti, Barbosa Filho e Feijó. A pergunta é outra: não "quais ocupações uma máquina pode fazer no longo prazo", mas quais tarefas a IA generativa já alcança hoje — e se ela substitui ou complementa quem as executa. A metodologia também muda. Índice da OIT, estruturado por tarefas (não por ocupação inteira), padrão ISCO-08, aplicado sobre PNADC de 2022T1 a 2025T2. Desenho de diferenças-em-diferenças dinâmico, com exposição congelada em 2022T3. FGV IBRE / OIT — IA generativa no Brasil (3T2025) 🔹 29,6% da população ocupada com algum grau de exposição (quase 30 milhões). 🔹 5,2 milhões no gradiente mais elevado de exposição. 🔹 ~20% combinam alta exposição com baixa complementaridade — o grupo de fato vulnerável. 🔹 Pouco mais de 20% combinam alta exposição com elevada complementaridade — potencial de ganho salarial. Fonte: Blog do IBRE, 27/04/2026, sobre Peruchetti, Barbosa Filho & Feijó. Repare em duas coisas. Primeiro, a decomposição por complementaridade. Exposição não é sinônimo de risco. Metade das pessoas em ocupações expostas está do lado em que a IA tende a ampliar produtividade e salário. A outra metade, no grupo vulnerável. Quando a conta é feita direito, o "risco de verdade" é da ordem de 20% — não de 58%. Segundo, o perfil. A exposição à IA generativa é maior entre mulheres, jovens, mais escolarizados, no Sudeste, em serviços (informação/comunicação e financeiro). É o oposto do perfil de risco por rotina do Frey-Osborne. É outro país sendo descrito. ⚙️ Por que os dois estão certosOs dois números não se contradizem. Medem coisas diferentes. Três diferenças fazem o trabalho aqui. Vaz et al. (2022) — o que mede 🔹 Unidade: ocupação inteira. 🔹 Métrica: risco de automação por rotina/destreza. 🔹 Base: PNADC 2017 · Frey-Osborne (2017). 🔹 Natureza: cenário de pior caso. 🔹 Perfil atingido: rotineiro, menos escolarizado. FGV IBRE / OIT (2026) — o que mede 🔹 Unidade: tarefas (ISCO-08). 🔹 Métrica: exposição à IA generativa × complementaridade. 🔹 Base: PNADC 2022T1–2025T2 · dif-em-dif dinâmico. 🔹 Natureza: medida empírica recente. 🔹 Perfil atingido: mais escolarizado, serviços, Sudeste.
Um número de 2017 não responde uma pergunta de 2026. 🔓 O que fazer com issoA variável que importa, tanto para política pública quanto para carreira, é complementaridade. Se sua tarefa é alta em exposição e baixa em complementaridade, você é substituível. Se é alta em exposição e alta em complementaridade, você fica mais produtivo — e provavelmente mais bem pago. A pergunta útil não é "minha ocupação está na lista dos 58%?". É: das tarefas que eu executo, quais a IA faz melhor sozinha e quais ela faz melhor comigo? Sobre o atlas em si — o Profissões.org.br — vale como mapa de atividades. A metodologia própria dele (Índice de IAtização, seis dimensões, regressão logística com TF-IDF) é interessante para navegar ocupações. Mas o 58,1% que aparece na capa é citação externa ao Vaz et al. (2022) — não é resultado do atlas. O próprio atlas escreve, literal, que "não estima pessoas que perderão o emprego". Use como mapa. Não como oráculo. 📄 Papers da semanaA curadoria da semana ficou curiosamente alinhada ao tema de hoje: boa parte destes papers está justamente tentando medir o que o debate público prefere anunciar.
📊 Modelo da semana — DSGEA economia inteira num sistema de equações — o que bancos centrais usam. O DSGE (Dynamic Stochastic General Equilibrium) representa a economia como sistema de equações derivadas do comportamento otimizador de agentes: famílias que escolhem consumo e trabalho, firmas que fixam preços, banco central que segue regra de juros. Dinâmico (ao longo do tempo), estocástico (choques aleatórios), equilíbrio geral (todos os mercados se ajustam juntos). A intuição: o comportamento agregado emerge de decisões microeconômicas explícitas. As famílias reagem hoje ao que esperam do futuro, e essa antecipação muda o efeito de qualquer política. Por partir de fundamentos, resiste melhor à crítica de Lucas. E é o contraponto elegante ao Frey-Osborne. O DSGE parte de fundamentos (preferências, tecnologia) justamente para sobreviver a mudanças de regime. Aplicar probabilidades americanas de 2013 a ocupações brasileiras de 2017 e projetar 20 anos à frente é o oposto — uma relação reduzida, estimada num regime, extrapolada para outro. A crítica de Lucas vale para previsão de automação também. Coeficiente estimado num mundo sem ChatGPT não sobrevive intacto num mundo com ChatGPT. 📘 Livros da semana — Inferência causal para economistasSeparar correlação de causa: o que todo analista de dados precisa dominar. Não é coincidência com o tema de hoje. Esta edição inteira é sobre medir a coisa certa — e o estudo do IBRE usa diferenças-em-diferenças dinâmico — desenho quase-experimental de inferência causal — justamente para não confundir "estar exposto à IA" com "perder o emprego por causa dela". Frey-Osborne não estima efeito causal nenhum: estima capacidade técnica de automação. A diferença entre as duas coisas é a diferença entre a lista abaixo e um chute.
Curadoria O'Reilly Learning. 🧠 Insight finalA pergunta que dominou o debate por uma década — "vou ser substituído?" — é a pergunta errada. Ela pressupõe ocupação como unidade indivisível e futuro como cenário único. A pergunta certa, a que os dados de 2026 sabem responder, é outra: minhas tarefas são substituíveis ou complementares? Uma virou risco. A outra virou ganho. Estão nos dois lados da mesma medida de exposição. Número velho responde pergunta velha. Se você ainda está debatendo os 58,1%, está discutindo o Brasil de 2017 com o método de 2013 — enquanto o Brasil de 2026 já tem espelho próprio. 📎 Material da semana 📄 Resumo da semana (PDF) — o digest completo das newsletters que embasou esta edição. 🎧 Ouça em podcast — esta edição em áudio. Um abraço, A verdade está nos dados. |
Receba todo domingo à noite em seu e-mail nossa newsletter com exercícios reais de análise de dados econômicos e financeiros, envolvendo muito estatística, econometria, machine learning e inteligência artificial em R e Python. Tudo o que você precisa saber para estar antenado no mundo dos dados!
EDIÇÃO #200 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO Como tirar projeto do papel com IA (a escada de 4 degraus) Fala, Reader, tudo bem por aí? Edição 200. E, depois de duzentas edições escrevendo sobre análise de dados e IA, eu quero usar esta edição especial para te ajudar a tirar as coisas do papel. Tem uma coisa que eu venho notando há meses, conversando com alunos e leitores: quase todo mundo está travado no mesmo degrau. Abre o chat, faz pergunta, copia a resposta, cola no documento. Ganha...
EDIÇÃO #199 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO A Macroeconomia da Inteligência Artificial Fala, Reader, vamos para mais uma semana? Domingo passado eu fechei a edição com uma frase solta, quase de rodapé. Falei que a IA realoca renda do trabalho pro capital. E que isso tinha uma implicação política óbvia — e tributária. Essa semana caiu na minha mesa um paper que pega exatamente esse fio e puxa até o fim. Um paper que fala em uma coisa que parece contradição: recessão causada pela IA. Não...
EDIÇÃO #198 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO A IA é um degrau, não uma rampa Fala, Reader, tudo bem por aí? Domingo à noite, e eu quero começar essa edição com uma provocação que resume por que este boletim existe. O problema, hoje, não é falta de informação sobre IA. É ruído demais. Manchete gritando apocalipse de um lado. Manchete gritando singularidade do outro. E no meio, você — tentando decidir se vale a pena investir tempo, capital humano e capex nisso. O trabalho aqui é separar...