|
EDIÇÃO #208 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO Por que querem parar a IA?Estão querendo parar o desenvolvimento da IA, você viu, Reader? Fiquei pensando nisso e no que temos conversado por aqui, em outros boletins. E eu tenho uma hipótese que gostaria de compartilhar com você. Primeiro, deixa eu te mostrar uma conta que apareceu esta semana no 8-K da Oracle, referente ao trimestre encerrado em 31 de agosto de 2026. Receita do trimestre: US$ 19,3 bilhões. Capex do mesmo trimestre: US$ 28,5 bilhões. Leia de novo. A empresa gastou em investimento, num único trimestre, quase 50% a mais do que faturou nesse mesmo trimestre. E o buraco foi tapado com US$ 20 bilhões em emissão de ações. Isso não é um escândalo e nem algo muito diferente de outras empresas similares. É a mecânica do boom de IA em estado puro. E é, também, o exemplo perfeito para revisitar um modelo que todo economista aprendeu na graduação e que, curiosamente, quase ninguém está mencionando nesta discussão: o Modelo de Solow. Bora lá ver isso em detalhe? 🎯 A conta da OracleVamos direto ao que o filing na SEC diz, sem adjetivo: Receita total (Q1 FY27): US$ 19,3 bi (+30% a/a) RPO (Remaining Performance Obligations): US$ 664 bi (+US$ 209 bi a/a) Free cash flow do trimestre: −US$ 5 bi Capital expenditures do trimestre: US$ 28,5 bi Emissão de ações (programa ATM): US$ 20 bi O RPO — que é basicamente o backlog de contratos assinados — é o número que mais anima o mercado. US$ 664 bilhões dizem que a demanda futura está contratada. Mas a linha do capex conta uma outra história. Para entregar esse backlog, a empresa precisa comprar GPU, construir data center, energizar servidor. E precisa fazer isso antes de faturar. Muito antes. Resultado: capex maior que receita, caixa negativo, e emissão de ações para financiar a diferença. Acumulação de capital, na veia. 📐 O que Solow diriaO Modelo de Solow, dos anos 1950, é a bússola de crescimento de longo prazo mais durável que a macroeconomia já produziu. Ele parte de uma função de produção com três ingredientes: capital, trabalho e produtividade. A intuição central é uma só: capital tem rendimentos decrescentes. Cada nova máquina adicionada a um trabalhador produz menos que a anterior. Você dá o primeiro computador a um analista, a produtividade dele explode. Dá o segundo, ele ganha uma margem. Dá o quinto, ele ganha praticamente nada. E, a certa altura, a depreciação do estoque de capital iguala o investimento novo — a economia para de crescer. Chegou no estado estacionário. A implicação é dura, e é a que interessa aqui: acumular capital, sozinho, não sustenta o crescimento da renda por trabalhador. O que sustenta é a produtividade — o famoso "resíduo de Solow", que no modelo original entra "de fora", como se caísse do céu. Agora aplique isso ao capex de IA. GPU é capital. Data center é capital. Servidor é capital. A pergunta que Solow forçaria você a fazer não é "quanto se está gastando", é: onde está a produtividade que justifica que isso não seja apenas mais capital rendendo decrescentemente? 🔬 Onde a produtividade realmente apareceÉ aqui que a evidência acadêmica de 2026 fica interessante. Porque ela finalmente começa a responder. O paper mais importante da semana, na minha leitura, é o Canaries in the Gold Mine, de Tania Babina, Alex X. He e Renhao Jiang (NBER WP 35684, agosto de 2026). O achado, com as palavras dos autores: "AI investments are associated with productivity growth in recent years, but not over the previous decade. We trace the productivity gains to the accumulation of organization capital that AI helps create: durable firm-specific knowledge acquired through learning-by-doing that enables more efficient production." Traduzindo: o ganho de produtividade da IA existe. Mas ele não vem do hardware. Vem do capital organizacional — o conhecimento específico da firma, acumulado por learning-by-doing, sobre como reorganizar processos em volta da nova tecnologia. E o detalhe decisivo está naquele "but not over the previous decade". A mesma tecnologia, sem a reorganização, não produzia ganho. Essa é a resposta direta ao velho Paradoxo de Solow — o de que "você vê a era do computador em toda parte, menos nas estatísticas de produtividade" — Robert Solow, 1987. Dois papers dos Feds regionais reforçam o quadro:
Junte as três peças: o capex é gigante, a adoção é larga mas rasa, o peso na produção é pequeno, e a produtividade aparece só onde há reorganização da firma. Não é uma tese de bolha. É uma tese de composição. ⚙️ O que isso significa para vocêQuando eu fiz a Edição #206, sobre o gargalo organizacional das scale-ups, e a #202, sobre o preço do token cair 80% sem a produtividade agregada aparecer, eu estava tateando esta mesma tese sem ter o vocabulário de Solow na mão. Agora tem. A pergunta certa nunca foi "qual modelo assinar". Também não é "quanto de capex alocar em GPU". A pergunta é: quais processos da minha firma foram redesenhados em volta da IA? GPU é capital. Rende decrescente. Processo redesenhado é capital organizacional. É o que muda o estado estacionário. E capital organizacional tem uma propriedade que o financeiro adora esquecer: ele não se compra. Ele se constrói, devagar, com learning-by-doing, com pessoa qualificada dentro, com tolerância a erro nas primeiras iterações. Não tem ATM equity program que resolva. 📄 Papers da semana
📊 Modelo da semana — SolowO que é. Representação do crescimento de longo prazo a partir de capital, trabalho e produtividade. A poupança faz o capital crescer, mas o processo esbarra em limites naturais. A intuição. Rendimentos decrescentes do capital. Cada máquina nova adicionada rende menos que a anterior. Acumular capital sozinho não sustenta o crescimento — a economia converge para um estado estacionário. O único motor de crescimento sustentado da renda por trabalhador é o progresso tecnológico, a produtividade, que no modelo original vem "de fora". Onde usar. Bússola para separar surto de crescimento durável (produtividade) de surto passageiro (acumulação bruta). Aplicado ao capex de IA, joga a pergunta certa na mesa: onde está o "resíduo de Solow" que justifica esse volume de investimento? 📘 Livros da semanaCuradoria O'Reilly Learning. Tema: Python para análise de dados econômicos — porque o economista de hoje passa mais tempo tratando dado do que interpretando teoria.
🧠 Insight finalSolow mostrou, há setenta anos, que capital acumulado tem limite e que o crescimento sustentado da renda por trabalhador vem da produtividade — o termo que, no modelo original, entrava "de fora". A grande aposta do capex de IA em 2026 é que a IA seja esse fator. A evidência de Babina, He e Jiang sugere que ela pode ser. Mas com uma cláusula que quase ninguém está lendo com o cuidado que merece: a IA só vira produtividade quando vira capital organizacional. E capital organizacional não sai do 8-K. Sai da firma que se deu ao trabalho de se reorganizar. US$ 28,5 bilhões num trimestre compram muita GPU. Não compram capital organizacional em lugar nenhum do mundo. 📎 Material da semana 📄 Resumo da semana (PDF) — o digest completo das newsletters que embasou esta edição. 🎧 Ouça em podcast — esta edição em áudio. Você vai mesmo perder a condição incrível do AM Black esse mês? Toda a plataforma, mais 12 meses com tudo o que produzirmos. Quando eu lançar produtos novos, você vai me agradecer por ter assinado. Um abraço, A verdade está nos dados. |
Receba todo domingo à noite em seu e-mail nossa newsletter com exercícios reais de análise de dados econômicos e financeiros, envolvendo muito estatística, econometria, machine learning e inteligência artificial em R e Python. Tudo o que você precisa saber para estar antenado no mundo dos dados!
EDIÇÃO #210 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO Ovos são perigosos? Fala, Reader, posso te contratar como perito? Essa foi, mais ou menos, a primeira questão de um trabalho de Econometria do Doutorado, há poucos dias. O enunciado me colocava no papel de consultor técnico num caso real dos anos 1970 nos Estados Unidos: produtores de ovos, reunidos na National Commission on Egg Nutrition, publicaram anúncios dizendo que não havia evidência científica de que comer ovo aumentasse o risco de...
EDIÇÃO #209 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO O agente ficou com o trabalho. Quem ficou com o dinheiro? Fala, Reader, você viu a manchete do "hedge fund que trocou US$ 5 milhões de folha por 4 agentes de IA"? Ela rodou a semana inteira. Eu fui atrás da fonte, li a entrevista original na CNBC e descobri que a história é real — mas está sendo contada errada. E aí, ao arrumar o caso, apareceu uma pergunta bem maior que "a IA vai tirar meu emprego?". Bora lá. 🎯 O que a manchete não conta...
EDIÇÃO #207 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO Aos 43, voltei a ser calouro Fala, Reader, espero te encontrar bem nesse final de domingo :) Alguns dos meus alunos que me seguem por aqui provavelmente já sabem da estória da minha vida, mas, como tem chegado muita gente nova, vou contar como tudo começou há 27 anos e como tudo está prestes a mudar (de novo)... Aos 16, entrei como estagiário técnico numa empresa de telecomunicações. Era meu início profissional e eu não poderia estar mais...