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EDIÇÃO #198 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO A IA é um degrau, não uma rampa Fala, Reader, tudo bem por aí? Domingo à noite, e eu quero começar essa edição com uma provocação que resume por que este boletim existe. O problema, hoje, não é falta de informação sobre IA. É ruído demais. Manchete gritando apocalipse de um lado. Manchete gritando singularidade do outro. E no meio, você — tentando decidir se vale a pena investir tempo, capital humano e capex nisso. O trabalho aqui é separar sinal de ruído. Sem hype, sem catastrofismo. Olhando o dado. E essa semana caíram dois estudos que, lidos juntos, desinflam o susto. Um post macro do Felipe Camargo modelando a IA em Solow-Swan + Aghion-Jones. E o Anthropic Economic Index, retrato empírico de como a IA está sendo usada de verdade lá fora — e aqui no Brasil. Bora destrinchar. 🎯 A tese: nem apocalipse, nem milagreO resumo em uma frase: a IA generativa é um degrau grande e finito de produtividade, não uma rampa infinita para a AGI. Degrau porque o ganho existe e é material. Finito porque, quando a adoção satura, o efeito acaba. E aí não tem mais fada para tirar coelho da cartola. Isso muda tudo. Se é degrau, o valor não está em temer a IA nem em idolatrá-la. Está em quem sobe o degrau primeiro — e com método. 📊 O caso Felipe Camargo: level shift, não growth effectO ensaio do Felipe Camargo é o melhor exercício macro sério que li sobre IA neste ano. Ele modela a IA como automação de tarefas existentes, dentro do arcabouço Solow-Swan combinado com crescimento endógeno à Aghion-Jones. Três blocos: adoção logística (curva S), tradução em produtividade, e realocação das parcelas de fatores. A frase que sintetiza o achado é dele mesmo: "AI is a level shift dressed up as a growth miracle." Ou seja: o ganho de produtividade depende da taxa marginal de adoção (Δφ), não do nível absoluto. Quando a adoção satura — e ela é bounded, "sobe e estaciona num nível razoável" —, o termo tende a zero. A aceleração acaba. Os números do dividendo cumulativo da IA em ~30 anos: DIVIDENDO CUMULATIVO DA IA (~30 anos, em p.p. de PIB) EUA: ~8,1 p.p. China: ~7,9 p.p. Reino Unido: ~7,6 p.p. Brasil: ~3,3 p.p. Índia: ~2,6 p.p. Fonte: Camargo (2026), "AI in Economic Growth Models". Modelo com premissas — não é previsão. Repare em três coisas. Primeiro: o termo de escala no modelo é quadrático. "Ser duas vezes mais automatizado é mais que duas vezes melhor." Consequência dura: a IA alarga a distância entre economias em vez de fechá-la. Convergência não é o cenário base. Segundo: a realocação capital→trabalho é implícita ao modelo. Com automação avançando, a parcela do capital na renda sobe e a do trabalho encolhe. O produto cresce mais rápido que a renda do trabalho. Isso tem implicação política óbvia — e tributária. Terceiro, e mais importante: a restrição binding é demografia. A IA "pode meramente adiar" o cenário demográfico, não remediá-lo. Índia desacelera de ~6,6% para ~2,8%. EUA de ~2,9% para ~1,7% no horizonte. A IA amortece a queda. Não a reverte. Ressalva honesta — e é a marca do Boletim: é um modelo com premissas. Automação de tarefas existentes, adoção logística. O próprio Felipe se diz cético de rotas em que a IA "reacelera" a inovação. Não estamos vendendo AGI aqui. Estamos vendendo um degrau grande. 🌍 Como a IA é usada de verdadeSe o Felipe dá o modelo, o Anthropic Economic Index dá a fotografia empírica. E ela casa perfeitamente com a tese do degrau. Os números que importam:
Lê comigo esses números na chave do Felipe. O uso real é tarefa profissional: código, escrita, análise. Não é AGI. Não é ficção científica. É automação de tarefas existentes — exatamente o que o modelo do Felipe assume. A correlação +1% PIB per capita ⇒ +0,7% AUI é o coração da tese de que a IA alarga. Ela difunde mais onde já há renda e capital humano. Quem tem, adota. Quem adota, ganha. Quem ganha, tem mais para adotar de novo. E o Brasil no top-5 do Claude.ai não é acaso — é uma janela. Estamos usando. A questão é quão fundo. Porque, no modelo do Felipe, o tamanho do degrau brasileiro (~3,3 p.p.) depende de quão fundo a adoção penetra. ⚙️ Do dado à prática: o método captura o degrauChegamos à parte que ninguém quer ouvir, mas que é a mais importante. Se a IA é degrau — e o tamanho do degrau depende de adoção real —, então o valor não está em ter acesso à IA. Todo mundo tem acesso. Está em aplicá-la com método a problemas concretos. O método existe há 25 anos. Chama-se CRISP-DM. Seis fases:
Não é sexy. Não é novo. É o que separa "usar IA" de "capturar o degrau do Felipe". É o que transforma IA mágica em ganho de produtividade mensurável e reproduzível. E aqui vai o que me deixou orgulhoso essa semana: os alunos da nossa formação entregaram dezenas de trabalhos aplicando CRISP-DM a casos reais de IA. Cada trabalho é uma prova viva de que o degrau se sobe aplicando — não esperando o futuro chegar. A ponte entre o modelo e o mundo O Felipe mostra que o degrau existe. O Anthropic Economic Index mostra que a adoção está acontecendo em tarefa profissional. O CRISP-DM é o método que transforma essa oportunidade macro em produtividade micro — no seu trabalho, na sua área, na sua empresa. 🧠 Insight finalVou amarrar tudo em três frases. A IA é um degrau de nível, não uma aceleração perpétua rumo à AGI — o dado macro (Felipe) e o dado empírico (Anthropic) concordam. O tamanho do degrau depende de quão fundo a adoção penetra, e a restrição binding lá na frente continua sendo demografia, não IA. Portanto: o valor não está em temer nem em idolatrar — está em aplicar com método. É contra o ruído que este boletim se coloca. Nem apocalipse, nem milagre. Só o dado, honesto, mostrando um degrau grande — e finito — que quem tem método sobe primeiro. 📎 Material da semana 📄 Resumo da semana (PDF) — o digest das newsletters de IA e macro da semana. 🎧 Ouça em podcast — esta edição em áudio. Um abraço, A verdade está nos dados. |
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EDIÇÃO #201 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO 58,1% dos empregos em risco? Fui atrás do número. Fala, Reader, tudo bem por aí? Essa semana esbarrei num site novo — o Profissões.org.br, um "atlas do trabalho brasileiro" — e logo na capa, o número que virou manchete no Brasil inteiro: 58,1% dos empregos no país correm alto risco de automação. Fui atrás. Porque quando um número se repete tanto, ele deixa de ser dado e vira slogan. Spoiler: o número existe, é sério, tem autor e DOI. Mas ele...
EDIÇÃO #200 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO Como tirar projeto do papel com IA (a escada de 4 degraus) Fala, Reader, tudo bem por aí? Edição 200. E, depois de duzentas edições escrevendo sobre análise de dados e IA, eu quero usar esta edição especial para te ajudar a tirar as coisas do papel. Tem uma coisa que eu venho notando há meses, conversando com alunos e leitores: quase todo mundo está travado no mesmo degrau. Abre o chat, faz pergunta, copia a resposta, cola no documento. Ganha...
EDIÇÃO #199 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO A Macroeconomia da Inteligência Artificial Fala, Reader, vamos para mais uma semana? Domingo passado eu fechei a edição com uma frase solta, quase de rodapé. Falei que a IA realoca renda do trabalho pro capital. E que isso tinha uma implicação política óbvia — e tributária. Essa semana caiu na minha mesa um paper que pega exatamente esse fio e puxa até o fim. Um paper que fala em uma coisa que parece contradição: recessão causada pela IA. Não...