Como tirar projeto do papel com IA?


EDIÇÃO #200 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO

Como tirar projeto do papel com IA (a escada de 4 degraus)

Fala, Reader, tudo bem por aí?

Edição 200. E, depois de duzentas edições escrevendo sobre análise de dados e IA, eu quero usar esta edição especial para te ajudar a tirar as coisas do papel.

Tem uma coisa que eu venho notando há meses, conversando com alunos e leitores: quase todo mundo está travado no mesmo degrau.

Abre o chat, faz pergunta, copia a resposta, cola no documento. Ganha algum tempo. Mas na semana seguinte, começa tudo de novo do zero.

Isso não é usar IA. Isso é usar IA no primeiro degrau. Tem mais três.

E a diferença entre parar no degrau 1 e chegar no degrau 4 não é prompt melhor, ferramenta paga ou talento especial. É método. Bora ao que importa?

🎯 A tese em uma frase

Produtividade com IA não vem de prompt melhor — vem de subir a escada de autonomia. E quase todo mundo empaca no primeiro degrau (conversar) sem nunca chegar ao quarto (delegar).

Cada degrau tem uma peça do ecossistema que faz sentido nele. E tem uma pergunta que o agente não responde por você — é aí que entra o método em si, no fim da edição.

Antes de começar, uma nota de honestidade metodológica: nesta edição eu ensino só o que está rodando em produção no meu próprio portfólio e que dá para verificar no código.

Então, bora entender melhor isso?

💬 Degrau 1 — Conversar (onde quase todo mundo para)

A IA responde pergunta. Chat, Projects, Artifacts. Você abre uma janela, digita, lê a resposta, copia, cola no seu documento.

O ganho existe. Mas tem teto — e o teto é baixo. A IA não toca nos seus arquivos. Você é o copiador-e-colador entre a inteligência artificial e o trabalho de verdade. Pior: cada conversa começa do zero. Não acumula.

Se é onde você está, tudo bem — todo mundo começa aqui.

Mas fica atento: se em três meses você ainda está aqui, o problema não é a IA. É que você não subiu o degrau.

⌨️ Degrau 2 — Executar (a IA entra no seu repositório)

Aqui a coisa muda. Claude Code no terminal: o agente lê e escreve arquivos, roda comando, abre PR no git. Ele não te devolve texto para você copiar. Ele faz.

A peça que muda tudo nesse degrau é o CLAUDE.md — um arquivo de instruções persistentes por projeto, versionado no git. Você deixa de explicar contexto toda vez. É memória do projeto.

Repare a variação. Não existe CLAUDE.md "certo". Existe o que o projeto precisa. O do CLAUDE.md do Boletim AM é grande porque tem regra editorial que não pode ser violada. Outro projeto que tenho aqui é um banco de dados macro, que chamo de Warehouse. O CLAUDE.md dele é curto porque o projeto é simples. Método é isso.

🔌 Degrau 3 — Estender (você dá capacidades novas à IA)

Agora a IA passa a acessar seus dados e suas ferramentas. A tecnologia que faz isso hoje é o MCP (Model Context Protocol).

Acabamos de lançar por aqui uma versão leve e aberta do MCP Análise Macro.

Nesse módulo aberto, disponibilizamos a metodologia de núcleos de inflação do banco central diretamente na sua IA favorita.

Esse aliás, é um dos caminhos que vejo como mais promissores hoje em dia para o uso de IA: disponibilizar MCPs para consumo direto na sua interface favorita.

Se quiser entender melhor como funciona, disponibilizei abaixo um exemplo simples:

Guia de instalação (para conectar no seu Claude): vitorwilher.github.io/nucleos/articles/conectar-ia.html

🤖 Degrau 4 — Delegar (roda sem você estar lá)

O quarto degrau é quando o trabalho acontece com seu notebook desligado. Você não está mais no loop. Você projetou o loop.

As peças aqui são Routines (o agente do Claude Code rodando na nuvem, no horário que você definir) e GitHub Actions (cron determinístico), combinados com connectors.

O exemplo canônico é o projeto Boletim Focus (github.com/vitorwilher/resumo-focus). A escada completa em três estágios encadeados:

  • Action baixa — segunda 09:15 BRT (cron: '15 12 * * 1'): pega o PDF do Focus no BCB, recuando dia a dia se a segunda foi feriado, extrai texto, commita em main
  • Routine escreve — o agente lê o .txt, aplica três portões de qualidade (frescor 0–3 dias ok / 4–7 marca [REVISAR] / >7 para; sanity check de ≥2000 caracteres e presença de "IPCA", "Selic", "PIB"), gera o HTML e commita
  • Action envia — disparado pelo push: SMTP do Gmail, só stdlib do Python

Dê ao agente a tarefa de julgamento; deixe o determinístico no script. Guarda essa frase.

Outros exemplos rodando hoje, todos verificados no repositório:

  • Newsletters/sunday-digest.yml — domingo 07:00 BRT (0 10 * * 0), gera o digest que alimenta este boletim. O podcast.yml é encadeado por workflow_run em vez de cron fixo — de propósito, para não haver corrida de horário
  • previsao_macro — 3 workflows encadeados por hora (base 00h → modelos 01h → dashboard 02h) nos dias 1, 8, 15, 22
  • ROI_Diagnostico — 16 workflows (divulgação, monitores, CRM)

🧭 CRISP-DM aplicado a agentes — o método que impede virar lixo

O CRISP-DM não morreu com a IA. Ficou mais necessário — porque agora é trivial produzir volume, e continua difícil produzir confiança.

As 6 fases, com a pergunta que o agente não responde por você e a peça do ecossistema que serve cada fase:

1. Entendimento do negócio

Que decisão muda com isso? Nenhuma ferramenta responde. Se você não sabe, vai automatizar um relatório que ninguém lê. Peça: nenhuma. É sua.

2. Entendimento dos dados

De onde vem e com que frequência muda? O Focus é semanal, o IPCA é mensal: isso define o cron, não o contrário. Peça: MCP, APIs.

3. Preparação dos dados

Determinístico ou julgamento? Regra de ouro: script para o determinístico, agente para o julgamento. Peça: Actions + src/.

4. Modelagem

O agente é o modelo ou o operador? No Focus ele é operador (lê e escreve). No Sentimento COPOM, três LLMs em paralelo são o modelo. Peça: Claude Code, API.

5. Avaliação — a fase que todo mundo pula

Como eu sei que está certo? É aqui que vive o que separa automação de gambiarra:

  • COPOM_RAG_Service: eval harness com golden set + LLM-as-judge com self-consistency, RAG sobre 48 atas do Copom e o Focus (862 chunks)
  • Focus: os três portões (frescor, sanity check, "todo valor citado tem de existir no texto extraído")
  • Sentimento COPOM: validação em três camadas, com .github/workflows/eval.yml dedicado

E a regra literal do projeto Focus, que eu considero um pequeno manifesto:

"Se não houver hipótese sólida para uma revisão, o agente escreve 'sem hipótese clara — pode ser ruído amostral' em vez de especular. É o que torna um resumo gerado por LLM confiável o suficiente para ir direto ao e-mail."

6. Deploy

Quem recebe e o que acontece se falhar? Fail-closed > fail-silent. Peça: Routines, Actions, connectors.

A frase que amarra tudo: o agente executa as 6 fases; ele não decide nenhuma delas. Método é o que você traz. Sem isso, IA só acelera a produção de coisa errada.

🎯 O desafio da semana

Escolha UM relatório que você faz na mão toda semana. Um só. Não automatize ainda — apenas suba um degrau com ele nesta semana.

Está no degrau 1? Abra o projeto no Claude Code e deixe o agente ler o arquivo de verdade. Escreva um CLAUDE.md de 10 linhas dizendo o que o projeto é.

Já está no 2? Conecte uma fonte de dado via MCP. O dos núcleos do IPCA está aberto e sem senha — comece por ele.

Já está no 3? Ponha um cron nele. Um Action que roda toda segunda e te manda o resultado.

A régua: na semana que vem, aquele relatório tem que estar um degrau acima. Não perfeito. Um degrau.

Se quiser ver o portfólio inteiro — o que está no ar, o que está rodando, o que existe hoje — a galeria pública está aqui: vitorwilher.github.io/projetos/.

🧠 Insight final

Duzentas edições atrás, este boletim começou com uma promessa: número em vez de opinião. O que eu não previa é que, ao longo do caminho, o método usado para produzir o boletim virasse tão importante quanto o conteúdo dele.

O portfólio inteiro que eu mostrei hoje — o MCP dos núcleos, o resumo Focus, o digest de domingo, os monitores do ROI, os workflows encadeados de previsão — nasceu um degrau por vez. Não teve virada de chave. Teve conversar, executar, estender, delegar. Nessa ordem. Com CLAUDE.md em cima de CLAUDE.md, com golden set em cima de golden set, com a paciência de deixar o determinístico no script e reservar o julgamento para o agente.

A IA não tira projeto do papel. Método tira projeto do papel — e a IA acelera cada degrau, se você souber qual é o próximo.

Tudo isso é o que vou começar a ver na segunda turma da nossa Imersão Claude Code para Economistas, Administradores e Contadores.

Você irá receber notícias em breve.

📎 Material da semana

📄 Resumo da semana (PDF) — o digest completo das newsletters que embasou esta edição.

🎧 Ouça em podcast — esta edição em áudio.

Um abraço,
Vítor Wilher
Análise Macro

A verdade está nos dados.

Boletim AM

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