|
EDIÇÃO #199 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO A Macroeconomia da Inteligência Artificial Fala, Reader, vamos para mais uma semana? Domingo passado eu fechei a edição com uma frase solta, quase de rodapé. Falei que a IA realoca renda do trabalho pro capital. E que isso tinha uma implicação política óbvia — e tributária. Essa semana caiu na minha mesa um paper que pega exatamente esse fio e puxa até o fim. Um paper que fala em uma coisa que parece contradição: recessão causada pela IA. Não é erro de digitação. Recessão. Com a IA aumentando a produtividade ao mesmo tempo. Bora destrinchar — porque a resposta reorganiza o que a gente espera da política econômica na próxima década. 🎯 A tese: o problema da IA é de demanda, não só de ofertaO resumo em uma frase: a IA pode nos deixar mais produtivos e, ainda assim, empurrar a economia pra uma recessão — e sair dela exige a política macro inteira, não só o juro. A intuição é mais simples do que parece. Automação sobe a produtividade. Ninguém discute. Mas ela também encolhe a fatia da renda que vai pro trabalhador — e engorda a fatia do capital. E aí entra o detalhe que muda tudo: o trabalhador gasta uma parte maior de cada real que ganha do que o dono do capital. Propensão marginal a consumir mais alta. Então quando a renda migra do trabalho pro capital, o consumo agregado cai. Mesmo com o bolo crescendo. A economia produz mais e demanda menos. Fornaro e Wolf, num paper do CEPR de abril, dão nome a isso: "AI slump". A recessão da abundância. 📊 Primeiro: o ganho de produtividade é menor do que te venderamAntes de falar da recessão, um banho de água fria no numerador. Todo mundo cita a IA como um salto de produtividade histórico. O Acemoglu, do MIT, sentou e mediu com rigor — via teorema de Hulten, fração de tarefas vezes economia por tarefa. O resultado: GANHO DE PRODUTIVIDADE DA IA — 10 ANOS TFP (Acemoglu): até 0,66% no total (~0,064% ao ano) GDP (Acemoglu): ~1,4% a 1,56% no total Goldman Sachs (2023): +7% do PIB global · +1,5% ao ano Fonte: Acemoglu (2024), "The Simple Macroeconomics of AI", NBER w32487. Modelo com premissas. Repare na distância. O que o Goldman projeta por ano, o Acemoglu projeta pra uma década inteira. Uma ordem de grandeza de diferença. A conta do Acemoglu parte de uma economia média de custo de 27% nas tarefas que a IA de fato toca — e são poucas, no horizonte de 10 anos. Ou seja: o ganho existe, mas é um degrau modesto. E vem torto — favorece o capital, complementa o trabalhador de alta qualificação e faz pouco pelo resto. Acemoglu chama de "so-so automation": desloca gente sem entregar o grande salto de produtividade. Junte as duas peças. Ganho de produtividade modesto e enviesado pro capital. É a receita do slump de demanda. ⚙️ Por que importa: a política macro toda entra em campoAqui é onde o Boletim mora. Se o diagnóstico está certo, nenhum instrumento sozinho resolve. Política monetária. O BC pode reagir cortando juro pra reanimar a demanda. Fornaro e Wolf mostram que funciona — em tese, converte o slump em boom. Mas com dois problemas. No curto prazo, a IA piora o trade-off entre inflação e emprego: sai mais inflação por ponto de emprego. No médio, o juro neutro (o tal do r*) cai junto com a demanda — e o BC bate no piso de zero antes de conseguir estimular o suficiente. Política fiscal e redistributiva. Se a raiz é distributiva, o remédio também é. Transferir renda pra quem tem alta propensão a consumir — trabalhador, famílias de baixa renda — sustenta a demanda sem obrigar o BC a estourar a meta de inflação. Vira complemento, não alternativa. Política tributária. E tem o incômodo estrutural: o código tributário atual já favorece o capital sobre o trabalho. Depreciação acelerada, crédito de investimento de um lado; imposto sobre a folha do outro. Na prática, o Estado subsidia a automação. Daí o debate do robot tax e da taxa sobre uso de IA — não como punição, mas pra parar de empurrar a balança. 📊 Modelo da semana: VAR (Vetores Autorregressivos)Estreia aqui uma seção nova — e nenhuma poderia cair melhor no tema de hoje. O VAR é o cavalo de batalha da macro empírica. Em vez de decidir de antemão quem causa quem, ele trata inflação, juros e atividade como interdependentes — e deixa os dados falarem sobre como uma coisa puxa a outra no tempo. É exatamente a pergunta do paper de hoje: o que acontece com a atividade e a inflação quando o BC mexe no juro? O VAR responde com as chamadas funções de impulso-resposta — simula como um choque isolado se propaga pela economia trimestre a trimestre. Quando você lê que "a política monetária converte o slump em boom", é num arcabouço desse tipo que a conta é feita. 📘 Livros da semana: econometria de séries temporaisE os livros fecham o par: a caixa de ferramentas que sustenta tudo isso. Prever inflação, juros e atividade não é adivinhação, é método. Todo economista que projeta um IPCA ou tenta antecipar o Copom está, no fundo, modelando um processo estocástico no tempo — do ARIMA clássico ao VAR.
Cinco leituras, da fundação teórica à implementação em Python. A lista completa está no resumo da semana. 🧠 Insight final: para o Brasil, os dois pedais já vêm travadosAgora traga isso pra cá. A resposta ao AI slump tem dois pedais principais: juro e gasto público. O Brasil chega nessa discussão com a Selic nas alturas e o espaço fiscal apertado. Os dois instrumentos que o paper receita já estão travados na largada. Enquanto a fronteira rica debate se corta juro ou se transfere renda, a gente precisa debater como criar qualquer espaço pra reagir. É uma conversa diferente — e mais urgente. A IA não vai pedir só política de inovação. Vai cobrar política macro. E vai cobrar de uma economia que entrou no jogo com menos munição. É disso que a gente precisa falar, com números na mão e sem susto. 📎 Material da semana 📄 Resumo da semana (PDF) — o digest completo das newsletters que embasou esta edição. 🎧 Ouça em podcast — esta edição em áudio. Um abraço, e até domingo. Vítor Wilher — Análise Macro A verdade está nos dados. |
Receba todo domingo à noite em seu e-mail nossa newsletter com exercícios reais de análise de dados econômicos e financeiros, envolvendo muito estatística, econometria, machine learning e inteligência artificial em R e Python. Tudo o que você precisa saber para estar antenado no mundo dos dados!
EDIÇÃO #201 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO 58,1% dos empregos em risco? Fui atrás do número. Fala, Reader, tudo bem por aí? Essa semana esbarrei num site novo — o Profissões.org.br, um "atlas do trabalho brasileiro" — e logo na capa, o número que virou manchete no Brasil inteiro: 58,1% dos empregos no país correm alto risco de automação. Fui atrás. Porque quando um número se repete tanto, ele deixa de ser dado e vira slogan. Spoiler: o número existe, é sério, tem autor e DOI. Mas ele...
EDIÇÃO #200 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO Como tirar projeto do papel com IA (a escada de 4 degraus) Fala, Reader, tudo bem por aí? Edição 200. E, depois de duzentas edições escrevendo sobre análise de dados e IA, eu quero usar esta edição especial para te ajudar a tirar as coisas do papel. Tem uma coisa que eu venho notando há meses, conversando com alunos e leitores: quase todo mundo está travado no mesmo degrau. Abre o chat, faz pergunta, copia a resposta, cola no documento. Ganha...
EDIÇÃO #198 | NEWSLETTER SEMANAL DA ANÁLISE MACRO A IA é um degrau, não uma rampa Fala, Reader, tudo bem por aí? Domingo à noite, e eu quero começar essa edição com uma provocação que resume por que este boletim existe. O problema, hoje, não é falta de informação sobre IA. É ruído demais. Manchete gritando apocalipse de um lado. Manchete gritando singularidade do outro. E no meio, você — tentando decidir se vale a pena investir tempo, capital humano e capex nisso. O trabalho aqui é separar...